Se para casais apaixonados o confinamento é uma oportunidade a mais para reforçar a intimidade, relações que já não iam bem das pernas foram à lona durante o período de convivência prolongada imposto pelo distanciamento social. Somente no Rio Grande do Sul, os cartórios registraram aumento de 26,4% em junho em comparação com maio. Em relação ao mesmo mês de 2019, o incremento foi de 7,7%.

O dado é referente a divórcios consensuais, de casais sem filhos menores de idade. O crescimento é atribuído, entre outros fatores, a uma maior facilidade para realizar esse tipo de processo. Desde 26 de maio, uma decisão da Corregedoria Nacional de Justiça permitiu que atos como divórcios, inventários, partilhas, compras, vendas e doações fossem feitos a distância por meio de uma plataforma digital. Dissolver uma união desgastada ficou ao alcance de um clique  —  agora os serviços estão disponíveis também em celulares.

—  Ficamos na dúvida se as pessoas iam aderir ao procedimento virtual, mas nos surpreendemos com a quantidade. Tivemos uma procura bem grande de maio para cá  —  relata Rita Bervig, tabeliã do 7º Tabelionato de Notas de Porto Alegre.

Para realizar o divórcio online, basta o casal acessar a plataforma www.e-notariado.org.br com RG, CPF e certidão de casamento  —  é necessário ter uma assinatura virtual. O procedimento, que é acompanhado por um advogado, não costuma levar mais do que 20 minutos.

Desde que o serviço entrou no ar, os cartórios registraram incremento nos divórcios em 24 Estados brasileiros  —  apenas Amapá, Mato Grosso e Rondônia não viram crescimento. Apesar do aumento expressivo, o Rio Grande do Sul está longe do topo. No Amazonas, houve alta de 133%, enquanto no Piauí, o acréscimo foi de 122%. Pernambuco teve 80% a mais dissoluções de um mês para o outro, seguido de Maranhão (79%), Acre (71%) Rio de Janeiro (55%) e Bahia (50%).

Para terapeuta, pandemia revelou problemas pré-existentes

O Brasil não está sozinho no aumento no número de uniões rompidas. Países como China, Estados Unidos, Itália e Portugal também viram mais casamentos ruírem durante a pandemia de coronavírus.

Para a terapeuta de casais e professora da UFRGS Adriana Wagner, o confinamento imposto pelo coronavírus, que obrigou os casais a conviverem mais, serviu para revelar ou intensificar problemas que existiam antes.

_ O confinamento mudou drasticamente o contexto, que é uma variável importante nas relações conjugais, revelando uma dinâmica conjugal pré-existente. Na rotina, os problemas se diluem. Com as pessoas confinadas, não tem como camuflar  —  diz.

Segundo a pesquisadora, resultados preliminares de uma pesquisa da UFRGS que está em processo de coleta de dados indicam que o distanciamento social tem contribuído de duas formas: para casais que estavam bem, ajudou a reforçar laços, enquanto para aqueles que mostravam desgastes, os problemas se agravaram.

 —  O confinamento interiorizou as pessoas, obrigou-as a refletir mais. Elas não podem culpá-lo porque ele apenas acelerou processos que já existiam.

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