Bolsonaro diz que grupo de esquerda matou pai de presidente da OAB; Comissão da Verdade culpa a ditadura

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O presidente Jair Bolsonaro voltou a falar sobre o desaparecimento do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, ocorrido durante a ditadura militar. Enquanto cortava o cabelo na tarde desta segunda-feira (29), Bolsonaro fez uma transmissão em vídeo e afirmou que o pai de Santa Cruz foi morto pelo grupo de esquerda do qual fazia parte, e não pelos militares.

– O pessoal da Ação Popular ficaram (sic) estupefatos, né? Como é que pode este cara do Recife vir se encontrar conosco aqui no Rio de Janeiro, o contato não seria com ele, seria com a cúpula no Recife. E eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz, essa é a informação que eu tive na época – argumentou o presidente.

Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, pai do atual presidente da OAB, militava contra o regime militar quando era estudante. Ele desapareceu em 1974. Em documento enviado à família, a Comissão da Verdade de Pernambuco apresentou um documento atribuído à Aeronáutica comprovando a prisão dele. O registro o classificava como membro da Ação Popular Marxista-Leninista (APML).

“Já na década de 1990, o Relatório da Marinha enviado ao então ministro da Justiça, Maurício Corrêa, em dezembro de 1993, informava que Fernando teria sido preso no dia 23 de fevereiro de 1974, sendo considerado desaparecido desde então”, acrescenta o relatório.

A Comissão Nacional da Verdade elencou duas hipóteses para o caso do pai do atual presidente da OAB. A primeira é a de que, depois de preso no Rio, ele foi levado para o DOI-Codi em São Paulo.

“Essa indicação do DOI-Codi/SP como possível órgão responsável pelo desaparecimento de Fernando e Eduardo aponta para a possibilidade de os corpos dos dois militantes terem sido encaminhados para sepultamento como indigentes no Cemitério Dom Bosco, em Perus”, diz o texto.

Outra possibilidade levantada é a de que Fernando e seu amigo foram encaminhados para a chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), “e seus corpos levados posteriormente para incineração em uma usina de açúcar”.

“Fernando de Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho permanecem desaparecidos até hoje”, conclui o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Já depoimentos do ex-analista do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) Marival Chaves, afirmam que Fernando Santa Cruz foi assassinado. Ele teria sido morto junto com outros ex-integrantes da organização de esquerda Ação Popular (AP), numa operação executada por conhecidos militares da repressão, como o então coronel do Exército Paulo Malhães (1937-2014).

Admirador do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador durante o regime, Bolsonaro defendeu que é necessário ouvir diferentes versões sobre o que ocorreu no período.

– Não foram os militares que mataram ele, é muito fácil culpar os militares por tudo que acontece – bradou.

O presidente não explicou, em detalhes, como reuniu informações sobre o caso.

– De onde eu obtive esta informação? Com quem eu conversei na época, oras bolas. Conversava com muita gente, tive na fronteira – completou.

Por fim, Bolsonaro disse que as ações militares foram necessárias para evitar “que o Brasil se transformasse numa Cuba, e que o Ação Popular era “o grupo terrorista mais sanguinário que tinha”.