Perspectiva de retorno às aulas presenciais em julho divide opiniões no RS

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Após semanas de análise e definição de protocolos, o governo do Estado definiu como e quando deve se dar o retorno presencial às aulas em todos os níveis das redes pública e privada do Rio Grande do Sul. Em anúncio feito nesta quarta-feira (27), Eduardo Leite apresentou um cronograma que inclui lições online para colégios estaduais já na próxima segunda-feira (1º), retomada de algumas aulas práticas — em cursos livres e técnicos, por exemplo — em 15 de junho e previsão de volta gradual às atividades escolares a partir de 1° de julho.

A volta às aulas de forma presencial deverá começar pelos extremos, com prioridade para a Educação Infantil e o final do Ensino Médio. Isso porque, na avaliação do governo, as crianças são as que mais têm necessidade de atendimento presencial dos professores para sua aprendizagem, enquanto os alunos que estão prestes a concluir a educação básica e, possivelmente, ingressar no Ensino Superior, precisam de reforço no ensino e também são capazes de cumprir melhor as regras definidas para sua segurança.

Essas datas, porém, estão sob análise e podem ser adiadas, a depender do avanço do coronavírus no Rio Grande do Sul.

— O cronograma pode ser postergado se tivermos um cenário adverso— definiu Leite.

Dividida em etapas, a volta gradual prevê para meados de junho o retorno de aulas práticas essenciais para conclusão de curso no Ensino Superior, pós-graduações e técnicos, além de profissionalizantes, de idiomas, artes e similares, contanto que sigam os protocolos estabelecidos. Não serão autorizadas aulas presenciais em escolas públicas ou privadas antes de julho. A expectativa é de que o retorno em todos os níveis seja concluído em setembro.

Repercussão

O anúncio do governo do Estado foi recebido com reações mistas por entidades representativas. Representando escolas e faculdades particulares, o Sindicato do Ensino Privado do RS (Sinepe/RS) recomenda que as instituições sigam as determinações anunciadas pelo governo do Estado e que continuem oferecendo o ensino remoto, prática já adotada pelas instituições desde março, quando iniciou a pandemia.

— Não há o que contestar. É um trabalho técnico, muito bem realizado, e vamos ter que aguardar esses protocolos para definir o que vai ser feito. A rede privada já está atendendo de modo remoto, então não será nenhuma novidade. Claro que há um impacto econômico, mas o mais importante neste momento é pensar nas vidas que estão envolvidas. Então vamos nos preparar para poder fazer uma volta com mais segurança em julho — define o presidente do Sinepe/RS, Bruno Eizerik.

Já a presidente do Cpers-Sindicato, Helenir Aguiar Schürer, explica que a categoria dos professores está preocupados com a volta às aulas, especialmente com a previsão de que as crianças poderão ir às escolas a partir de 1° de julho. Os alunos do 3° ano do Ensino Médio, entende a professora, já têm mais capacidade de seguir regras, mas isso é mais complicado com os pequenos.

— É um alívio sabermos que não retornaremos (às escolas) no dia 1° de junho. Mas, depois, de que forma vamos manter o distanciamento de uma criança de zero a 3 anos? Uma criança contaminada, ou mesmo um professor ou funcionário, resultaria em uma explosão de contaminação. Espero realmente que o governo repense essa situação e não exponha as crianças menores a esse risco. Tenho muito medo de que as escolas se tornem uma “bomba biológica” no Estado — descreve Helenir.

O infectologista Evaldo Stanislau também expressa preocupação com um retorno presencial às aulas a partir de julho, em pleno inverno. Ele explica que, sem vacina ou medicamento com eficácia comprovada no combate à covid-19, as únicas medidas eficazes contra o coronavírus são proteção e comportamento, no plano individual, e distanciamento social, no aspecto coletivo. Para o médico, seria mais adequado aguardar uma contenção maior da pandemia para definir o retorno das atividades escolares.

— É necessário, primeiro, observar uma diminuição do impacto da pandemia. Não pode a volta às aulas ser no pico da transmissão, tem que ser abaixo da curva. Em um segundo momento, quando se pensar em voltar ao normal, é preciso que a pandemia esteja sob controle: não em uma fase ascendente, mas descendente. O sistema de saúde já está muito estressado, e não podemos voltar ao normal. Precisamos, ainda, de maior capacidade de fazer diagnóstico. Só depois disso se pode pensar na volta ao normal — explica Stanislau.

Antes de apresentar o cronograma previsto para a volta às aulas, o governo do Estado mostrou os resultados finais da primeira fase da pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) que apura a prevalência do coronavírus na população gaúcha. O estudo indicou resultado positivo para o Rio Grande do Sul, apontando que a contaminação se manteve estável nas últimas semanas, o que ajudou a definir o calendário proposto para o ensino.