Comunidade do Jubaré, Barra do Rio Azul, sedia reencontro de ex-atletas

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Houve um tempo em que existiam duas equipes de futebol na comunidade do Jubaré, Município de Barra do Rio Azul: o Esporte Clube Juventude e o SER Aurora. E quando essas equipes se enfrentavam nos domingos dos anos 70, 80 e 90, rendiam histórias que são contadas até hoje nas rodas de amigos.

Então, nada melhor que uma data especial para reviver esses belos momentos.

O reencontro aconteceu no último sábado (24) e reuniu os ex-atletas e familiares que faziam parte dos dois times para uma confraternização com partida de futebol entre as equipes, jantar e música ao vivo.

História
A comunidade do Jubaré começou a ser povoada por volta do ano de 1920, quando imigrantes das colônias italianas vinham para a região em busca de terra fértil e as demais riquezas. Povo muito trabalhador e religioso que dedicava toda a semana para as atividades rurais. Já o domingo era dia de guarda e descanso.

Em busca de uma descontração para os domingos à tarde, além das partidas de baralho e jogos de bocha, alguns jovens idealizaram uma nova prática de lazer na comunidade e, assim, no ano de 1935, nascia a Sociedade Esportiva e Recreativa Aurora do Jubaré, um time de futebol que veio a se tornar uma referência da comunidade.

Um esporte com a cara da comunidade e, assim, o time do Jubaré se tornou conhecido em toda região por ser uma equipe leal e competitiva, capaz de fazer amizades a cada domingo, fato que contribui para que a comunidade seja lembrada por todos como um lugar de pessoas adoráveis e de ótima receptividade.

São inúmeras histórias que o Ser Aurora já proporcionou, e ainda proporciona. Entre títulos, campeonatos e amistosos que já foram realizados nos três estados do sul do País e, inclusive, com equipes do sudeste nacional, é fácil entrar em uma conversa descontraída e viajar no tempo em rodas de amigos que relatam algum fato já ocorrido nos domingos esportivos da equipe.

Na década de 70, o número de jovens na comunidade era muito grande e uma única equipe de futebol já não era mais suficiente para atender o desejo de todos jogarem bola, por isso, motivado por algumas discórdias fúteis, alguns amigos deixaram a equipe do Aurora para fundar um novo time de futebol. Era o início de um período memorável para aqueles jogadores. No ano de 1972 era fundado o Esporte Clube Juventude do Jubaré.

Os três principais fundadores foram Exilio Fiabani, Valdecir Mazon e Iri Mazon, que teriam muito trabalho pela frente, pois o time iniciava da estaca zero e tudo deveria ser construído. Os três, acompanhados de Valdir Rosset, Gentil Bordignon, Odacir Rossetti, Amélio Fiabani e Zenir Fiabani, iniciaram o trabalho de construção do campo e sede do time. Logo mais, outros foram tomando parada e juntando forças para que o objetivo fosse alcançado. Na época, era muito difícil realizar esse tipo de trabalho, pois ele era exclusivamente braçal, já que naquele tempo não existiam tratores e máquinas para auxiliar no processo.

O local para construção da Sede do Juventude foi um bosque na propriedade de Zelindo Fiabani. Era uma área de potreiro que tinha uma região plana ideal para um campo de futebol, porém havia um grande problema: existiam muitas árvores, principalmente pinheiros e guajuviras, que precisavam ser derrubadas para dar lugar ao campo de futebol. A sociedade do Juventude, antes de começar a praticar futebol, deixou de lado os fardamentos e as chuteiras para usar como principal ferramenta machadinhas e serrotes, e o primeiro adversário do time foram todas aquelas árvores que começaram a vir a abaixo uma a uma, manualmente. E não bastava cortar a planta, era necessário ainda cavar e cortar parte das suas raízes para que depois a bola pudesse rolar perfeitamente pelo gramado.

Em um sábado à tarde, parte dos jovens já perdia esperança em vencer aquela grande árvore, quando Valdir Rosset anunciou que não desistiria. Ele disse: “até eu não derrubar essa árvore hoje, eu não vou pra casa”. Assim retomou as tentativas até vencer a planta e ver ela vir a baixo ao sons de galhos quebrando, misturado aos gritos de vitória daqueles que estavam lá. Depois de derrubadas as árvores, foram serradas e serviram de tábuas para construção do galpão que abrigava a copa. Ainda hoje, parte do galpão em ruínas pode ser encontrada na propriedade que pertence a Olide e Alderi Fiabani.

A partir daí, em todos os domingos tinha jogo, e quando a partida era em casa, no sábado de manhã ela era anunciada no programa Hora do Chimarrão da Rádio Aratiba, e os sócios eram convocados para no sábado à tarde fazer o corte da grama. Como uma convocação militar, nas primeiras horas da tarde despencava para a sede do campo o pessoal da Linha Coruja e do Não facilite e o trabalho inimaginável aos dias de hoje de cortar a grama de foicinha e limpar os vestígios do gado de pá eram realizados em questão de horas.

Na sede do campo não havia energia para gelar a bebida, mesmo assim a copa era famosa por sempre servir cerveja gelada. A bebida era comprada no comércio de Felipe Detoni, que fornecia também o gelo para gelar a bebida, porém esse deveria ser retirado no domingo de manhã. Essa era uma tarefa para Pedro e Rosalino Fiabani, que se revezavam para buscar, de Fusca, o gelo, em Itatiba do Sul, e colocar a bebida para gelar dentro de um mastel com serragem que mantinha a cerveja em uma temperatura ideal.

Muitos torneios eram realizados e recebiam até 30 times. No final da tarde, quando os visitantes iam para casa, o pessoal do Juventude se mantinha unido para um ritual especial: enquanto havia cerveja gelada, eles ficavam lá para beber até tomar a última, afinal não poderia sobrar cerveja gelada pra não estragar. Quando todas as garrafas haviam sido esvaziadas, os engradados erram carregados numa carroça e os jogadores a empurravam até a casa do Zelindo Fiabani, local que abrigava o depósito do time.

Quando a partida era fora de casa, os jogadores iam a pé até o Jubaré, para embarcar no caminhão que os levava. Eram quatro os proprietários da época que prestavam esse serviço ao time: Alcides Vanzetto, Ângelo Ferranti, Lazareno Ferranti e Arlindo Ferranti, que gostava bastante da equipe do Juventude, pois sempre que eles voltavam dos jogos paravam em seu bar para consumir mais algumas geladas.

Com o Juventude e o Aurora em plenas atividades esportivas, os clássicos se tornaram constantes nas décadas de 70, 80 e 90. Os jogos eram acirrados e recheados de muita rivalidade, mesmo em partidas amistosas, afinal, nenhuma das duas equipes queria perder e conviver com os adversários vitoriosos na mesma comunidade. Por isso, as partidas eram tratadas como grandes finais, temperadas com confusões e discussões, que terminavam completamente quando o juiz apitava o final da partida. Dessa forma, a rivalidade sempre ficou apenas dentro das quatro linhas do campo e os jogadores saiam juntos do gramado para fazer festa na mesma comunidade.

Dessa forma, o clássico entre Aurora e Juventude é lembrado até os dias atuais como uma recreação saudável e amistosa.

No ano de 1992, já com menos integrantes, considerando que parte de seus jogadores haviam se casado e mudado para outras regiões, o Esporte Clube Juventude enfrentou uma grande dificuldade para devolver suas partidas amistosas, já que Alcides e Arlindo, principais transportadores, haviam deixado o Jubaré, e Lazareno priorizava os transportes do Aurora.

Assim, 20 anos depois de sua fundação, o Esporte Clube Juventude decretou o fim de suas atividades, e os jogadores voltaram a jogar no SER Aurora, que mantem suas atividades até os dias de hoje, muito por mérito de descendentes dos jogadores do Juventude.